Espelhos e sombras…

1. …começando pelo óbvio: é possível que esteja em curso um processo de diminuição generalizada da inteligência do brasileiro comum (ou mediano). Pergunta: será que é por que o brasileiro ficou menos inteligente mesmo? Ou por que os novos meios de interação com a realidade facilitou o uso da estupidez na forma de se manifestar sobre qualquer assunto que vier à telha?

2. Prosseguindo pelo não tão óbvio: algum indivíduo médio sabe se existe diferença entre ser mediano e ser medíocre? Lembrem-se da regra de ouro de qualquer debate civilizado: perguntar não ofende!!!

3. Se você souber a resposta da questão 2., responda essa: qual é a diferença entre ética e moral? É possível que você, sem se dar contar, esteja praticando uma ética diversa de sua moral? Se positivo: será certo ou errado, aplicar em seu próprio corpo (ou pedir para que alguém o fala em sem lugar) dez chibatadas?

4. Após responder todas as questões anteriores, você se considera um indivíduo livre e plenamente satisfeito? Ou um oprimido e recalcado?

5. Se optar por responder por “nenhuma das anteriores”, o que faria de diferente para si e para os demais? Só vale responder, após argumentar sobre as quatro primeiras questões…

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Domingo no Templo

 

Hoje, tivemos um dia dos pais bastante diferente. Eu e o meu pai estávamos conversando sobre o assunto Oriente Médio, o futuro da região, e a condição de Israel e dos israelenses. Estávamos tentando entender que mecanismo é esse que perpetua o medo e a demanda pela segurança dentro da comunidade, que é um tema que talvez tenha algum tipo de inconsciente coletivo, cujo impacto se construiu por gerações, e de repente, temos a realidade atual. Após o almoço com a família, surgiu uma ideia um tanto diferente. A de visitar o recém inaugurado “Templo de Salomão” da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Mas não uma visita por dentro, até porque recentemente tive a experiência de ter contato com um desses cultos que são exatamente o contrário daquilo que me ensinaram do que é religião. Além, é claro, de eu ser um agnóstico. E de o Templo estar vedado à visita aberta até o dia 22/08. A intenção era, na verdade, outra. Compreender o fenômeno que era aquele acontecimento, que fez até uma presidenta, um governador de Estado e um prefeito serem personalidades convidadas para a inauguração, e comparecerem, como se todos pertencessem a um mesmo governo: o dos céus divinos.

Pegamos o carro, e fomos até a avenida Celso Garcia, Zona Leste de São Paulo. Bairro do Brás, tradicional reduto da colônia italiana, hoje uma região decadente, onde antigas plantas de fábricas abandonadas e prédios são utilizados para os mais variados fins. No meio do caminho, passamos pelo Centro Velho, e a antiga Catedral da Sé, na sua beleza e imponência de “marco zero” da cidade. A bela arquitetura em estilo neogótico e os detalhes da Sé são marcas da nossa história, não apenas por motivos da fé católica, mas também por momentos da história leiga do país como na luta contra a Ditadura Militar, como o caso da Missa Ecumênica liderada por Don Paulo Evaristo Arns, Pastor James Wright, e o Rabino Henry Sobel, em memória do desaparecimento brutal de Vladimir Herzog, em 1975.

De repente, passávamos na Celso Garcia, e vimos uma grande Igreja, da própria IURD. Ficamos impressionados, com toda a elaboração e a arquitetura. Mas não era ainda o tal Templo. Duzentos metros depois, finalmente, nos demos conta que aquela Grande Igreja era pequena, perto do que veio logo depois. Um edifício que fazia “apequenar” a Catedral da Sé. E uma grande sucessão de filas de fiéis. Era isso que mais nos deixava impressionados. A grande possibilidade de imensas massas serem arrebanhadas e conduzidas até aquele local.

Paramos em uma rua próxima. Em frente ao Templo, havia uma sede da Assembleia de Deus, também bastante grande. No entanto, bem menor que o Templo. E uma Igreja Católica tradicional, mas de tamanho ainda menor. Me lembro que na avenida paralela, a Radial Leste, testemunhei em ocasiões anteriores, a sede da Igreja Pentecostal “Deus é Amor”, talvez a maior em tamanho físico das demais igrejas mas jamais com a mesma imponência do Templo. Uma outra sede da Assembleia de Deus de tamanho semelhante à que vimos na Celso Garcia. Sem contar a principal sede da Igreja Renascer em Cristo, a “Renascer Hall”, que substituiu uma casa de shows que eu frequentava na adolescência (o Moinho Santo Antônio). Lembro bem que as Igrejas Católicas matrizes da Mooca (no Largo da Concórdia) e do Tatuapé (na Praça Sílvio Romero), estavam bem menos frequentadas, mais vazias. Pensei comigo mesmo: estão formando um grande Church Belt, da Sé até Itaquera, em duas grandes vias de acesso, próximas ao metrô, trens e a terminais de ônibus, atendendo a cerca de 40% da população paulistana.

A imponência do Templo era absurda. Ainda mais, diante da realidade da região. Um local decadente, esquecido, sem nenhum atrativo. Ficamos observando de longe, do outro lado da rua as pessoas, vindas de todo o Brasil, se organizando em excursões, para a visita ao local. Era muita, mas muita gente mesmo. Todos portando uma Bíblia na mão, vestidos a caráter, e orientados por monitores especialmente treinados. Alguns seguranças de perfil discreto, e cicerones vestidos de vermelho, com a imagem do templo, orientando os visitantes, sobre o que poderia, ou não, portar dentro da edificação. Acompanhamos de longe todo esse pessoal em uma caminhada de uns 300 metros até o portão de entrada dos fundos. O da frente estava aberto, mas com algumas cercas e um pessoal circulando, e somente entrando alguns grupos específicos. Não dava para deixar de contemplar a beleza da construção. E era ali que podíamos compreender como esse novo prédio, que foi erguido, segundo reportagens, ao custo de R$ 680 milhões, fascinava.

Na rua, já saindo do carro, escutávamos da própria sede do Templo, uma música tocada em tom leve, relaxante. Essa melodia, que era realmente agradável, podia ser escutada há uns 200 metros de distância. E quando chegávamos perto, não parecia um som alto e invasivo, pelo contrário. Dali, que eu comecei a compreender um pouco mais o que é esse poder de atração ao fiel. Mas isso não seria nada para mim, se não fosse a pergunta: o que faz com que um trabalhador brasileiro abra mão de pelo menos (pelo menos!) dez por cento de seus ganhos para a construção de uma obra que erradique o analfabetismo, a evasão escolar, melhore a saúde, etc., a fim de se permitir criar a segunda maior rede de televisão do país, um grande conglomerado de rádios, jornais, agência de viagens, e enfim igrejas, e, no limite, essa grandiosidade que pudemos presenciar?

O dia dos pais foi passado com essa questão. E enquanto passeávamos, vendo de longe, como funcionava tudo aquilo, pudemos ver uma escadaria com jardins, árvores da região do Oriente Médio, e uma série de mastros com bandeiras de países em que a IURD têm as suas sedes, acompanhadas, no piso superior, de três estandartes: o da própria IURD, no centro, a do Brasil, de um lado… e a de Israel, de outro!

Aquilo intrigava a mim e ao meu pai. Em alguns momentos, fazíamos piadas sobre isso. Não existem os judeus que querem construir o Terceiro Templo em Jerusalém? Então, vamos convencê-los de que a Mesquita de Al-Aqsa pode ficar por lá mesmo, e que se eles desejarem, podem dar uma passadinha aqui na Zona Leste de São Paulo, que tem uma igualzinha à que eles gostariam que fosse erguida. “Teríamos” um Terceiro Templo emprestado para nós, em um país bem tranqüilo, sendo que não precisaríamos de um rabino para fazer a reza. bastava que os bispos da IURD fizessem o trabalho por nós. Todos eles, usando Talit e Kipá, como foi visto na televisão, ao vivo, para quem quisesse assistir.

Pessoalmente, não compartilho com o modo de rezar dos fiéis, muitas vezes tomados pela histeria coletiva, através daquela repetitiva e exagerada exaltação dos pastores ao longo dos cultos. A forma de rezar de um judeu é bem mais silenciosa. E um rabino é bem mais comedido. E vamos ser sinceros: pelo menos na Televisão, os bispos da IURD foram bem menos histriônicos na ocasião da fundação do Templo do que muitos de seus pares em tempos normais. Imagino que saibam que o Brasil e o resto do mundo estão todos atentos a esse evento, e qualquer deslize nem que fosse bem distante do famoso “chute na santa”, feito por um bispo da IURD em 1995, não teria espaço por ali.

Mas, no caso, falando sério. Chamou bastante a atenção o pragmatismo daquele fenômeno. Ao lado, uma loja autorizada, com produtos relacionados ao Templo de Salomão. Miniaturas do templo, da Arca da Aliança e outros souvenires. Aprenderam bem, e de gente bastante experimentada em matéria de comércio. Passamos para o quarteirão seguinte, onde já tinha a outra grande Igreja da IURD. E lá apareceu um dos fiéis autorizados abordando a gente, com folhetos, naquele estilo de “dá ou desce”. Agradecemos veementemente, e ele obviamente parou, dando-se conta de que éramos apenas transeuntes da região. Passamos ao lado da outra Igreja, e vimos que ela também ocupava quase que um quarteirão inteiro.

Dali, atravessamos de volta para o caminho de nosso carro. Havia uma padaria tradicional do bairro. Mas qual seria, a partir daquele momento o sentido daquela padaria, diante de tanta devoção? Estávamos escutando aquela sinfonia do templo, e blah!, cinco toques de sino. Era a Igreja Católica local, avisando: 17 horas! Ainda bem que ainda existe um sino que dobra pelos demais mortais…

Já no carro, falávamos. Bem: é essa massa de gente crédula e trabalhadora que está, direta ou indiretamente, auxiliando Israel. Com Netanyahu lá. E Edir Macedo aqui. Com conexão via agência de viagens. Enquanto isso, os sinos da Igreja do Brás, a padaria local e os prédios antigos e mal cuidados complementam a paisagem. No meio deles, um edifício com o nome de “Olga Benário Prestes”. Ah bom. Ao menos isso. Estávamos a caminho de dar mais um passeio até chegar na casa daquele a quem o dia merecia a devida homenagem. E falávamos da trégua na Faixa de Gaza e dos prejuízos na imagem de Israel, perante o mundo. Alguns ataques em locais vazios de Israel e do Hamas. talvez para dar satisfação ao público interno. Mas, e a imagem do Estado judeu? E as campanhas por boicote e rompimento de relações? Será que Netanyahu está tão preocupado com isso? Será que ele não se importa com o crescimento do antissemitismo pelo mundo? As manifestações e o aumento de incidentes na Europa e, imagine, mesmo nos EUA, já não são suficientes para cair nele e em seus asseclas a ficha?

De repente, me dei conta daquele momento que foi a visita, ainda que de longe, ao Templo de Salomão. E lembrei de um amigo que sempre me diz, nas conversas em pé de bar: “pense no papel que a religião tem sobre o homem, quando ela internaliza a sensação do medo e da culpa. Um ser humano sem medos e sem culpas é um perigo. Imagine se falamos de milhões”.

Concluí, pessoalmente: vivemos em um mundo onde o indivíduo moderno vive com medo. Um medo que é fácil de ser manuseado. E levado do plano do simbólico para o do concreto. E esse indivíduo não sabe o que fazer direito com a culpa dele. Alguém tem que determinar o que é culpar, e o que é punir. Esqueceram convenientemente do que significa responsabilizar. Essas coisas dão mais trabalho. Torna o indivíduo um perfeito cidadão. E cidadania é algo incômodo demais para a consciência coletiva. Ainda mais quando os líderes de plantão são os questionados da vez.

 

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Sobre as eleições de 2012

O eleitor deu uma boa resposta nessa eleição: se por um lado, não aprovam a corrupção dos governos em que o PT participa, por outro também não desejam governos tucanos com tendências salazaristas.

Eleitor não tem partido, apenas confirma a tendência momentânea de uma sociedade. Porque o mesmo eleitorado que ontem deu a vitória a Fernando Haddad, há 40 dias estaria em sua maioria elegendo Celso Russomanno.

Na real, esse eleitorado elegeu burocratas de partidos, pastores, policiais, despachantes, gente ligada ao mercado imobiliário, altos funcionários do município, etc. Ah sim, também elegeu alguns professores, profissionais liberais, médicos, militantes de causas específicas.

Influiram decisivamente nessa eleição a IURD e a TV Record, que conseguiram emplacar um candidato com pouco mais de 21% válidos. Representantes importantes da Igreja Católica e do quarteto Abril/Folha/Estadão/Globo também influenciaram tirando Russomanno da disputa.

É com todo esse pessoal, e perante essa sociedade que o Haddad irá governar. Ele terá consigo 11 vereadores do PT, que representa 20 % da Câmara, além de um grupo de aliados que inclui o PP de Paulo Maluf e o PMDB de Gabriel Chalita. Vamos ver o que sai disso daí…

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Século XXI e a ‘terceira onda’: o que ficou?

Fábio Metzger

Seria algo um tanto estranho alguém escrever sobre a História do Futuro. Quando escrevemos sobre História, falamos sobre uma Era Anterior, e o homem em seu tempo de então. Podemos até falar de um momento Contemporâneo e traçar cenários futuros em linhas gerais, para que as gerações seguintes tenham a oportunidade de refletir a certo respeito. No mais, escrever sobre o Futuro, fazendo previsões é algo que não passa de um exercício ao qual se dá o nome de “Futurologia”. Existem aqueles já ganharam dinheiro e fama fazendo esse esforço. Lembro-me dos livros do casal Alvin e Heidi Toffler, em especial, “A Terceira Onda”, de 1980 (19ª. Edição Editora Record, 1993). Nesse livro, Alvin Toffler lança diversos desafios de uma nova sociedade, enquanto aquilo que era denominado como “Civilização industrial” começava a desmoronar. Os Toffler tinham grande acesso à comunidade científica dos EUA, onde estava ainda em fase de nascimento a Internet. Na verdade, já era o momento em que a URSS ainda era uma superpotência a desafiar os EUA – não havia a Perestroika, tampouco a Glasnost, para denunciar internamente as mazelas do marxismo-leninismo, e Moscou seria a sede dos Jogos Olímpicos de Verão daquele ano. O presidente dos EUA ainda era Jimmy Carter, um progressista para a realidade do mundo Capitalista. O Neoliberalismo não passava de uma doutrina restrita a alguns espaços em universidades dos EUA e Europa Ocidental, e era adotada apenas na Grã Bretanha com grande contrariedade da opinião pública, sob o governo de Margareth Thatcher.

“A Terceira Onda” fazia previsões de uma sociedade globalização sem existir a Globalização tal como hoje a conhecemos. Falava de uma sociedade do consumidor a tomar lugar de um sistema produtivo. De uma linguagem fragmentada (a cultura blip) substituindo outra, estruturada (p. 171). De uma sociedade da informação, que estaria por se consolidar no século XXI. E finalmente na desestruturação dos Estados Nacionais. Futurologia pura. Mas certamente com informações privilegiadas de alguém que teve acesso à então comunidade científica dos EUA, e de gente que estava direta ou indiretamente ligada às estruturas de poder, alguns deles prestes a assumir posições importantes no governo de Ronald Reagan e George Bush Sênior, pelos 12 anos seguintes. Era antessala do Neoliberalismo, descrita com cuidado e critérios de um sociólogo, na forma de um exercício de previsão do Futuro. Sem dar o nome de “Neoliberalismo”, sem falar que aquele era um projeto de privatização do Estado, ele explicou e apontou o que seriam essas novidades em um tom otimista, como se uma receita de bolo estivesse prestes a ser implementada. Mas não dando soluções econômicas a la Von Hayek ou Milton Friedman, mas sim fazendo apontamentos com conceitos da Administração e da Sociologia. Sem ter precisão de como medir as consequências do que viria a acontecer[1], Toffler apontou esse processo que hoje é denominado comumente (e, portanto, não por ele) de “Globalização Neoliberal”.

Este homem nascido em 1928, e que viveu o século XX, “previu” vinte anos antes o XXI. Acertou no essencial. Mas errou em alguns aspectos. Não teria como prever de forma mais específica uma grande crise e os seus efeitos, como aconteceu a partir de 2008; não teria como imaginar a construção de redes sociais mais sofisticadas como Facebook (justamente em uma época em que Mark Zuckerberg não era nem pensamento), a criação de uma grande massa de pobres e desempregados do Primeiro Mundo e novos ricos do Terceiro. Obviamente, seria necessária a vocação de um profeta para fazer isso, o que decididamente, nem Alvin, nem sua esposa Heidi eram, a despeito de suas incríveis capacidades de trabalhar as informações às quais tinham acesso. Foi um grande e poderoso exercício de construção de cenários, que infelizmente poucos conhecem. Por outro lado, trata-se de um exercício de previsão bastante motivado politicamente, em um momento em que já tinha se passado oitenta por cento do século XX, para um homem que já tinha vivido a maior parte daquelas oito décadas, com mais duas a viver (no momento em que lançou “A Terceira Onda”, Toffler estava com 52 anos). Toffler era o homem de seu tempo na História. O originalmente de formação marxista e posteriormente evoluindo para a linha de pensamento liberal[2], Toffler faz uma crítica bastante ampla de alguns pressupostos do velho Marx, no “Manifesto do Partido Comunista”.

Parcialmente concordando com as premissas de Marx, “mas criticando a atribuição da desumanização das relações sociais ao Capitalismo” (pp. 53-55), Toffler, fez uma ressalva: essa desumanização seria atribuída ao “industrialismo”, comum ao Socialismo Real da URSS e ao Capitalismo de então dos EUA pré-Neoliberalismo. Obviamente, o Marx do século XIX atribuía àquela forma de forma de produção industrial a denominação de Capitalismo, e o Socialismo como a sua superação, com um “novo homem”: no entanto, seria necessário um duro e terrível processo revolucionário para tal situação fosse viável. Portanto, antes do “Novo Homem” a ser realizado no século XX, seria necessária uma grande luta já a partir do XIX[3]. Vamos nos lembrar de que Marx era testemunha daqueles momentos: as revoluções de 1848 que varriam a Europa e as Restaurações conservadoras que se sucediam. Havia o Marx idealista e normativo, que pensava o novo homem. Mas também tínhamos o realista, materialista-histórico, que só poderia ver qualquer possibilidade de mudança após uma mudança concreta nas relações de poder. Previsões para o futuro, concretamente, o velho pensador alemão não quis correr maior riscos, a despeito de ter se colocado politicamente com suas ideias, que podem estar certas ou erradas, mas que eram exatamente aquilo que ele pensava.

Toffler, por sua vez, pretendia ir além de falar apenas de ideias: queria fazer previsões, algumas até arriscadas demais, como se o futuro já estivesse construído. Um grande acerto que chamou de “terceira onda”, na medida em que, sim, estivemos assistindo nesses últimos 30 anos, a franca decadência da sociedade industrial e a ascensão de outra, global. Mas um imenso engano, quando, se trata de transformar essa nova “onda”, que poderia ser uma breve apresentação de cenários, em um grande conjunto de previsões. Assim, embasado em um processo inevitável de revolução tecnológica científica e gerencial que o mundo estava começando a passar e viveu nos tempos seguintes, Toffler quis ir além da montagem de cenários: o Mundo que estaria por viver a “terceira onda” teria, segundo ele, capacidade de ter “mais amor” e “relações mais quentes”, porque haveria maior tempo para as pessoas estarem juntas uma com as outras (pp. 219-223).

Esse processo internacional que inevitavelmente diminuiu a quantidade de trabalho necessário para a manutenção da produção mundial não fez o equivalente com as jornadas de trabalho da grande massa das populações. Pelo contrário: quem possui trabalho enfrenta jornadas cada dia maiores, com menos garantias e direitos. Quem não tem trabalho (e aqui já não se fala de emprego), vai se marginalizando e se tornando, no médio e longo prazo, um subcidadão. Onde é possível ter “mais amor” e “relações mais quentes” em uma situação como essa? Como explicar para os milhões de homeless dos EUA e desempregados da Europa, que hoje eles possuem mais tempo para ter mais relações? Sim, tem relações sociais em maior nível, e maior quantidade. Mas quem disse que essas relações são de maior qualidade?

Ao mesmo tempo em que tivemos uma “terceira onda” na política e na economia, houve também outra, no crime organizado, e nas redes privadas de assistência mútua, transformadas muitas vezes em estruturas fundamentalistas religiosas[4]. São elas que ocupam o tempo de quem não tem emprego fixo, e não as organizações estatais e da sociedade civil (como os sindicatos), cada dia mais fracas[5]. O “novo homem”, que vive a “cultura do blip” não teve uma melhoria. Ao contrário, essa “cultura do blip” tão cantada em verso e prosa por Toffler pode ter se transformado em algo muito, mas muuuito pior: a cultura do merchandising, da mensagem subliminar, e em consequência, da censura a falas que poderiam ser mais espontâneas em outros tempos… Em nossa nova cultura, tudo é bullying[6], trolling[7], spaming[8], dating[9]. Onde está o amor e as relações?

Sim, a essa altura vão falar que estou sendo maldoso com Toffler, por ter tentado adivinhar tanto. Ele não tinha Internet em 1980 em grande massa, se tanto ainda existia o embrião dessa ferramenta restrita às comunidades científicas dos EUA. Eu e centenas de milhões temos o Facebook, hoje em dia. É muito fácil criticá-lo. Difícil é falar dos seus enganos, como algo que era muito próprio de acontecer em tal circunstância. Então, com licença, deixo aqui o meu elogio: Toffler é um escritor corajoso. Desconheço alguém que tenha tido a ousadia de ter se exposto da forma como ele o fez. Tiro o meu chapéu para a sua coragem. Uma coragem, onde ela ponta também os possíveis efeitos nefastos. Mas qual é o lugar desses efeitos? Essa questão fica de pé, a cada momento. E a resposta é só o futuro que poderá dar, e não a “Futurologia”: esta pode ser uma vontade de realizar, mas não necessariamente a realidade.

Alvin Toffler pode ser criticado e elogiado. Da direita à esquerda, ele recebe ressalvas e é grande referência. O leitor pode não saber, mas Hugo Chavez, o presidente venezuelano, tem Alvin Toffler como referência. O Socialismo do Século XXI da Venezuela foi formulado a partir de um aggiornamento do pensamento nacionalista de um país latino-americano, às tendências apontadas por Toffler, em “O Choque do Futuro” (1970), “A Terceira Onda” (1980) e “Powershift” (1990)[10]. Por outro lado, Toffler e sua esposa eram os gurus intelectuais do político membro da direita do Partido Republicano, Newt Gringrich. Sendo que este fez o Pósfascio do livro “Creating a New Civilization: The Politics of The Third Wave” (1995, Turner Publishing)[11]. Para, além disso, Toffler foi consultor de Mikhail Gorbatchev e Zhao Zhiang, dois históricos líderes reformistas do ex-mundo Socialista[12]. O que será que faz unir o mais conservador do primeiro mundo ao mais nacionalista do terceiro? E o que os une aos antigos reformistas do ex-segundo mundo?

Os trabalhos que os Toffler escreveram não têm ideologia formal, apesar de obviamente eles terem as suas preferências. Politicamente, o que produziram serve para qualquer grande político que necessite formular uma visão estratégica, seja ele um bolivariano ou neoconservador norte-americano. As suas reflexões servem para socialistas reformistas ou para capitalistas defensores do status quo.

Pessoalmente, comparo o que Toffler escreveu em “A Terceira Onda” com a atualidade, e sinto uma sensação estranha. O século XXI é o extremo oposto do que ele mesmo poderia ter imaginado. Infelizmente para ele. E infelizmente para nós. Eu, que é alguém ainda no XX, e que teve tempo de viver 25 anos desse século, vejo o XXI com muito ceticismo. A “terceira onda” está aí já estabelecida. Mas onde estão os políticos que lidaram ou estão lidando com ela? Ver um líder neoconservador da Era Bush defensor da Guerra do Iraque ou o líder máximo da Revolução Bolivariana na América Latina orientados por estas diretrizes só me faz lembrar de um ditado: em terra de cego quem tem um olho é rei.


[1] E obviamente sem ter os elementos necessários para precisar como isso aconteceria.

[2] Aqui é necessário fazer uma ressalva. Quando falamos de “liberal”, citamos dentro do contexto do debate nacional dos EUA. Onde os liberais estão à esquerda e os conservadores à direita. Ambos estão fechados em um consenso geral, que é a defesa do sistema político e econômico norte-americano. Originalmente, os liberais defendem maiores investimentos nas áreas sociais, enquanto conservadores entendem que a livre iniciativa deve ser mais privilegiada. Com o tempo, esse debate se deslocou para um embate cultural: os liberais defendendo a ênfase ao pluralismo e à tolerância, e os conservadores enfatizando de maneira mais firme valores nacionais – em contraposição a conceitos como a transformação da família, a liberação sexual, etc.

[3] Nesse sentido, Toffler faz uma discussão bastante interessante sobre o conceito de “novo homem” do marxismo: busca se afastar da idealização (ou normatização) marxista dessa definição. E a deixa em aberto (pp. 374-376). No entanto, o que fazer com aquele homem, já dado como um dado da realidade, que Toffler já está imaginando para a “terceira onda”.

[4] Que ele mesmo Toffler chega a apontar como desenvolvimento de subseitas e exércitos particulares (pp. 368-374; 386-393). Mas para qual direção exatamente ele pretende apontar com isso? Com o tom otimista que o livro aponta? Ou com o ceticismo maior que talvez coubesse?

[5] Pior, a cada dia, esses grupos criminosos e fundamentalistas vão gradativamente ganhando representantes dentro do Estado e da sociedade civil.

[6] Assédio emocional a pessoas emocionalmente mais fracas. Como se isso já não existisse antes.

[7] Provocações cibernéticas, feitas individualmente ou em correntes. Muitas vezes feitas por pessoas que, ao vivo, podem ser as mais cordiais e afetuosas. Outras tantas, mensagem apócrifas de quem não tem coragem de colocar o próprio pescoço à prova.

[8] Ou seja, o péssimo hábito de mandar SPAM´s, mensagens que outras pessoas não pediram, mas receberam em seu computador.

[9] Paquera pela Internet. Há muitos corações solitários que, na falta de um amor presencial, ocupam o seu tempo, “fabricando” ‘amores’ virtuais.

[10] Há que se dizer que Chavez, no período em que ficou preso, após a tentativa de Golpe em 1992, leu os trabalhos de Toffler.

[11] O que será que faz alguém que passa décadas pensando questões tão profundas orientar políticos de tendências tão equivocadas?

[12] Ambos não tiveram sucesso em seus projetos. Gorbatchev tentou reformar a URSS. E o resultado foi o seu fim e o do Bloco Socialista. Zhao foi banido dentro de seu próprio partido, antes de os altos dirigentes do PCCh liderarem o Massacre da Praça da Paz Celestial.

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Sobre os moralistas

“Tenho cada vez mais desconfiança dos moralistas. Porque uma pessoa imoral, você já bate o olho, e se afasta logo. Um indivíduo amoral logo fica exposto, perde seus amigos, e só tem os interlocutores de conveniência. Já o moralista tem belos discursos, convence quem está por perto, e de quando em quando pode ter as mais nobres justificativas para realizar as maiores barbaridades. Por isso que eu penso: moralidade, se você tiver, não a pregue, simplesmente utilize-a, até onde a sua coerência permitir…”

Fábio Metzger, 09/01/2011

“Em tempo: não sei se podemos falar a respeito de ‘falsos moralismos’. A princípio, todo moralista é verdadeiro. O problema é que para ele só existe a sua própria verdade.” (F.M.,11/01)

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Normativo e Analítico 6

Quando vou me lembrar do que é analítico e normativo, creio que o cientista social que melhor dosa os dois elementos em suas análises é Max Weber. Sua visão em relação à história não é baseada em idealismos, mas sim na realidade nua e crua dos acontecimentos. È o processo da Modernidade que dissolve os antigos valores tradicionais construídos a partir da religião. No caso, da Igreja Católica.
Só mesmo um alemão, que convive em seu próprio país com o que restou da antiga estrutura do milenar clero germânico, e com o surgimento do Luteranismo, para poder analisar com bastante lucidez estas duas etapas sociais: a pré-moderna e a moderna. Na primeira, o controle social feito pela Igreja é primordial. Na segunda, são as relações racionalistas, com a justificativa na letra da lei civil, incorporadas pela sociedade do trabalho, visando o mercado é que comandam.
Esta visão racionalista e legal, para Weber, não é algo que o entusiasma. Ao contrário. È a partir do poder da Lei do Estado secular, e da racionalidade intrínseca à ela é que seremos todos engolidos pelo político profissional. Aquele que vive na burocracia. O pequeno chefe burocrata, que controla o Estado, e regulamenta as instâncias sociais. A partir do momento em que a religião não cumpre este papel, cada indivíduo, com os seus demônios pessoais, passa a criar uma situação de grande turbulência. E só mesmo um Estado com o monopólio da violência consolidado é que vai controlar tudo isto. E é nesse momento que o pequeno chefe racional legal da burocracia irá se estabelecer, em detrimento ao poder tradicional, consolidado anteriormente.
Por outro lado, Weber não desiste da política. E como Maquiavel, procura uma liderança virtuosa. Aquela que, em seus termos, vive para a política. Um político carismático, com qualidades especiais, capaz de se direcionar diretamente à população e explicar com simplicidade como é a política. È este líder, que ao invés de viver da política, vive para a política, que Weber espera, um dia, suplantar o pequeno chefe burocrático. Uma liderança que conduza a política, não apenas o reles racionalismo. Mas sim com todo o conteúdo e emoção que requer a vocação de um político.
Nesta situação, Weber aponta que da própria modernidade surgiu um novo sistema de crenças que se adapta melhor à sociedade do trabalho: o protestantismo, e a sua ética pelo trabalho, que casa tão bem com o capitalismo acumulativo. As ideias de “predestinação” calvinista ou de “vocação” luterana seriam a base para que o indivíduo buscasse o seu lugar. Só saberia de sua vocação ou seu destino, se trabalhasse e produzisse. Algo tão diverso da antiga ética católica.
Se formos analisar no todo, Weber escorrega neste momento. Porque se existe uma religião modelo, por que os países católicos ou o Japão, que nem cristão é conseguem o sucesso com o seu capitalismo? É preciso lembrar que Weber analisa a ascensão capitalista da virada do século XIX e XX. E não há nele a perspectiva, tão arguta em Marx, da ideia da Economia Política, que aponta para projetos nacionalistas burgueses, seja para um capitalismo precoce como o inglês ou o francês o capitalismo tardio alemão e supertardio russo-soviético.
Ou seja, antes de falarmos de uma ética de trabalho na religião, é preciso lembrar que o Estado Nacional consolidado é algo fundamental no desenvolvimento econômico. Este Estado Nacional, eficiente coletor de impostos, promotor de atividades sociais e burocráticas, é também apoiador da burguesia nacional. È esta burguesia capitalista que estimula a racionalização da produção, rumo a uma ética do trabalho, independente de ela ser protestante ou não.
Digamos que a ética protestante pode até estimular o individualismo. Mas não a ética do trabalho. Esta pode muito bem ser desenvolvida por um católico reformado italiano, grande empresário ou operário padrão. Só que isto está muito mais ligado às condições materiais do que a uma simples ideologia religiosa. Ou seja, um determinado estágio de economia capitalista está diretamente ligado a esta ética do trabalho.
Podemos até afirmar que, bem no início do capitalismo, a ética protestante favoreceu uma classe empresarial nos países anglo-saxões, e facilitou a adesão dos funcionários e operários em um novo processo econômico. E que a Alemanha, bastando ser unificada, com esta mesma ética protestante, teve um avanço bastante facilitado do desenvolvimento capitalista. No entanto, por que isto seria exclusivo ao protestantismo? Se formos analisar, apesar de posteriores, os capitalismos italiano, francês e espanhol já estão em estágio semelhante (e, em muitos casos, até superior) ao do inglês. A Rússia, mesmo não sendo tão rica, tornou-se industrial a partir de uma matriz coletivista. Assim como a China. E ambas se tornaram grandes modelos tecnológicos, especialmente a Rússia, cristã ortodoxa, uma das maiores superpotências dos últimos cem anos. Isso sem falar do Japão e de países que estão emergindo nos tempos atuais, como Índia e Brasil. Nada impede que esses países atinjam um nível de concentração maior que os dos países protestantes no futuro. Especialmente no caso chinês.
Então, há uma questão normativa de Weber a se analisar: o tipo ideal. Ele idealiza tipos puros. E a partir destes modelos, diz o que é certo e o que não é. Seu realismo na análise da construção do Estado acaba ganhando o contrapeso da adoção de normas destes tipos puros. A nossa sorte é que ele mesmo admite isto, e afirma que, na realidade, estes tipos são sempre mistos. Então nunca há apenas uma liderança carismática. Esta liderança certamente tem aspectos racionais e legais, e constrói em torno de si uma tradição de permanência. Por exemplo, Lênin, no momento em que levou adiante a NEP na URSS. Mesmo um político tradicional pode construir em torno de si qualidades pessoais que conquistem um eleitorado. Exemplo maior: Winston Churchill, político tradicional britânico, que conseguiu conquistar de seu eleitorado a confiança para conduzir a política externa do país durante a II Guerra Mundial.
De qualquer forma, Weber não deixa de apontar questões fundamentais. Se estamos superando o pré-capitalismo, o capitalismo não será nenhuma maravilha. Ao invés de termos uma moral religiosa, teremos o individualismo de cada um. È inevitável que um leviatã moderno surja, e imponha sobre toda a sociedade o monopólio da violência.
No entanto, este monopólio só funciona pela lei. Uma lei com justificativas racionais. Que imponha à multidão a soberania do Estado. Como bem pensava Hobbes, em relação ao Soberano antigo. No entanto, Weber não faz uma defesa aberta disto. Apenas analisa uma tendência: a da construção da moderna sociedade capitalista do século XX.
E onde nela há alguns aspectos que se impõem sobre a intersubjetividade das relações sociais: a separação do público em relação ao privado, a edificação de um corpo jurídico e uma burocracia, a moderna empresa política, o partido político, o empreendimento financeiro, fabril, etc. Tudo isto só funciona com o monopólio da lei e da razão. E neste sentido, para Weber, a esperança não é a do Leviatã moderno. Mas sim do novo príncipe. Aquele que possui carisma, e explica o mundo aos seus liderados. È a pitada de idealismo mínima de Weber ao seu caldo realista.

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Normativo e Analítico 5

O interessante, quando analiso os contratualistas, é que a ideia de contrato social sempre passa por algo que é uma forma de idealismo normativo. É a tentativa de sobrepor à natureza das coisas a cultura humana. Cabe aqui lembrar que, em Locke, Hobbes e Rousseau, sempre tivemos bem claro o papel da dimensão normativa. Mas para Hobbes o normativo tem condições mais restritas. Se, para Locke, o que vale é o indivíduo, e para Rousseau, o povo, para Hobbes, a ideia de contrato social tem como principal protagonista o Estado. Assim, por mais idealizada que pareça, a teoria hobbesiana é aplicada de forma concreta. É o contrato social, onde a lei do mais forte prevalece sobre o indivíduo e o povo. E é esta a minha principal preocupação. Povo e indivíduo são elevados a uma categoria moral. Enquanto que o Estado pode até ter as suas justificativas morais. No entanto, trata-se de uma entidade ultrasólida e que funciona amoralmente.
Este Estado do qual estou falando tem outros teóricos para além de Hobbes. Alguns mais entusiastas outros mais céticos. Quero lembrar de um, Maquiavel, que se assemelha com Hobbes na maioria dos atributos. O italiano de Firenze, como o filósofo inglês de Malmesbury, busca separar suas convicções morais e normativas do que a história e a análise lhe proporcionam.
As justificativas de Maquiavel partem do que é, e não do que deveria ser. Ele analisa a Itália pré-unificada e pós-renascentista. E observa a decadência da Renascença, movimento cultural que prosperou em uma série de pequenas repúblicas italianas, incluindo Firenze.
Esta decadência tirou fôlego da Península. E logo, a região começou a ser dominada por estrangeiros. Ao Norte, ao lado de cidades-Estado republicanas, o avanço dos reis franceses. Ao Sul, o controle da Família Habsburgo no atrasado reino das Duas Sicílias. No Centro, os Estados Papais. A preocupação de Maquiavel: reerguer a Itália, diante da influência estrangeira.
Os problemas principais: a divisão de poderes na Península. E fraturando o Norte em relação ao Sul, um Centro político dominado pela Igreja, os Estados Papais: um Estado religioso, controlado pela mais importante autoridade religiosa da Europa, a Igreja Católica. E, portanto, com grande legitimidade para se impor.
Diante do poder moral-religioso da Igreja e de pequenos reinos de influência estrangeira, Maquiavel nota que, nas pequenas repúblicas, há uma grande instabilidade. Em diversos momentos, famílias realizam golpes, e assumem o poder, a partir de novos principados.
Maquiavel tem uma posição política clara: é republicano. Mas sua preocupação é saber como unificar a Península. Se for pelas suas convicções, o bom exemplo é o da “Década de Tito Lívio”, em que ele analisa as boas compensações de um sistema política erguido de forma pluralista, nos tempos da República romana. Demonstra que Roma foi próspera, enquanto Patriciado e Plebe compartilhavam o poder em um acordo de setores, onde a coisa pública era defendida por todos. Que esta poderia ser uma solução importante para a sua Itália: famílias nobres, setores eclesiásticos e a população unidas em torno de uma instituição representativa que defendesse os interesses gerais da Itália.
Sendo, no entanto, realista, Maquiavel acredita mesmo que o caminho mais fácil, antes do republicanismo, é do controle dos príncipes. E realiza em “O Príncipe” uma reflexão de como um príncipe deve conquistar e sustentar seu poder.
Acredita Maquiavel que, em meio a tantos príncipes, é importante surgir um líder com grandes qualidades pessoais, ou seja, a virtù. Alguém capaz de aglutinar apoios, de modo a conquistar poderes e territórios, a fim de controlar a Península. No entanto, não basta esta virtù. È preciso a Fortuna, ou seja, que os acontecimentos conspirem a favor deste líder. Sucesso real é o que importa. Não basta apenas ser um grande líder. É Preciso estar no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa.
Para tanto, duas qualidades são necessárias: a astúcia da raposa e a força do leão. Ser esperto o bastante para convencer as pessoas de seus objetivos. E forte o suficiente para, se não for amado, ao menos ser temido.
Nesse panorama, Maquiavel apresenta uma série de fatores determinantes. Uma vitória militar será sempre mais recomendável com um soldado cidadão, leal ao Estado, do que a tropas mercenárias, que se movem por interesses não nacionais. E isto é fundamental para que o príncipe possa avançar. Se não for querido por um povo vizinho, deve colonizar a região com seus próprios nacionais, levar governantes próprios, ou então se transferir pessoalmente, a fim de gerar o respeito daquele que não o apreciam.
Nesta situação, Maquiavel identifica normatividade nos indivíduos e em sua relação com o povo. Mas não confere esta normatividade ao Estado. Este Estado é, na verdade, um instrumento fundamental, para reerguer as tradições e culturas de uma civilização. Seja ele um principado, seja ele uma república.
Tal análise foi bem lembrada por outros dois estudiosos, séculos mais tarde: Antonio Gramsci e Max Weber. Gramsci, um membro do PCI. Weber, um liberal alemão. Cada um, à sua maneira, preocupou-se em pensar no príncipe maquiavélico. Aqui irei me deter como Gramsci, conterrâneo de Maquiavel, pois a questão central maquiavélica é também a de Gramsci: a unificação italiana e o ressurgimento cultural desta civilização. A diferença fundamental é que Maquiavel analisa a Itália antes de unificada, e Gramsci, posteriormente.
É este Gramsci que vai se preocupar como é possível haver mudanças políticas na Península. Ele destaca alguns dos problemas reais. O primeiro é que, mesmo unificada, a Itália ainda tinha a famosa fratura Norte e Sul, que fazia com que duas formas de ser italiano convivessem de maneira contrastada. O Norte rico, e mais próximo de franceses e alemães, o Sul pobre, atrasado e feudal.
Nisto, Gramsci chama a atenção de um aspecto importante: a do papel do intelectual orgânico na forma de mediar estas duas regiões. E aqui, Gramsci ressalta que, antes de se pensar em qualquer processo revolucionário, é preciso que proletariado realize um trabalho de mediação, visando sua hegemonia social.
Para tanto, é preciso para Gramsci, como era para Maquiavel, um príncipe. No entanto, o príncipe gramsciano tem natureza diferenciada: trata-se de um príncipe coletivo, uma máquina partidária, que necessita agir dentro do Estado, e não para conquistar pequenos Estados. Um príncipe, que Gramsci pensava ser o Partido Comunista como máquina mediadora da cultura entre Norte e Sol. Um príncipe coletivo, que levava consigo a ideologia do proletariado.
Aqui, notamos, o pragmatismo maquiavélico em Gramsci. Mas também a normatividade marxista. Um partido certo, para fazer a coisa. O partido que tem as virtudes revolucionárias que os outros não possuem, e que só ele pode construir este glorioso caminho.
Obviamente, Gramsci já estava observando bem os problemas da URSS. E desejava um caminho diferenciado para Itália. A Itália monárquica (portanto, com um príncipe individual). E a Itália fascista (com um líder ditador centralizando tudo). Para Gramsci, era necessário compreender por que o fascismo tomava conta e tinha ampla aceitação. Assim, Gramsci recupera, mais uma vez, Maquiavel, e lembra da função da Igreja Católica. O Estado monárquico unificado, ainda tinha a associação com a Igreja. A Itália fascista fez um acordo com a Igreja e conferiu soberania ao Vaticano. Este papel cultural histórico da Igreja tem um peso fundamental. È a mediação na região central da Península, compensando a fratura Norte-Sul. A instituição, por excelência dominadora sobre os fragmentos ideológicos das regiões e províncias, tão diferentes entre si. E, diante do crescimento da classe operária, e sob o direto acordo com a Igreja, o Estado fascista passou a cumprir este novo papel. É esta mediação que precisa mudar de mãos: passar às mãos do moderno príncipe que Gramsci enxergava no PCI.
Se formos pensar, mais para a frente, podemos notar que houve uma flexibilização do PCI. Na medida em que este assumiu o compromisso com a democracia. Na medida em que passou a absorver e atrair militantes católicos. Ao ponto em que a reação das oligarquias regionais e grupos mafiosos tiveram que agir rápido, para impedir este avanço. Oligarquias e grupos, desde sempre, resquícios da Itália pré-unificada. E que só poderiam se preservar se estimulassem a criação de uma classe média local, de pequenos e médios comerciantes.
Por outro lado, a ideia de hegemonia gramsciana foi a mola mestra para a construção de um novo e importante pilar da sociedade italiana: as centrais sindicais: o novo príncipe que, se não consumou o projeto gramsciano, ao menos tornou-se um elemento a coexistir com os demais: oligarquias, empresariado e clero.
Se Gramsci não estava totalmente certo pelo que deveria avançar como novo mediador Norte-Sul, certamente acertou no aspecto básico de todas estas mediações: a função do intelectual orgânico. Dentro de um regime pluralista, este intelectual orgânico não tomou a forma de ponta de lança de um partido-príncipe pela hegemonia do proletariado, o PCI. Mas passou a mediar várias hegemonias menores: os intelectuais conservadores, com a Igreja, os liberais, com o empresariado, e os socialistas, junto ao proletariado. Se não se atingiu o principado moderno de Maquiavel, sob a forma do PCI, ao menos Gramsci conquistou, com a sua argúcia, pensadores de diversos espectros políticos. Como exemplo notável, o liberal Norberto Bobbio.
A ideia de hegemonia, portanto, se não levarmos em conta qual é a ideologia certa ou a errada em termos normativos, mas se observarmos de forma realista e analítica os fatos e acontecimentos, é a mola mestra mediadora e unificadora da Península Italiana.
Por mim, pessoalmente, o PCI seria o partido de vanguarda na Itália. Era um partido comunista democratizado, modernizado, bastante arejado. No entanto, pelos fatos reais, e buscando compreender como as coisas são, não posso deixar de chamar atenção que a mediação jamais poderia ser feita de forma exclusiva pelo PCI. E sim, com o PCI, a DC (democracia cristã), a Igreja, o empresariado, o proletariado e a classe média. Como bem pensou Maquiavel, quando apontou para os acordos entre patrícios e plebeus na Roma republicana e, a “Década de Tito Lívio”. Na superação de um Mussolini ou de um Vittório Emmanuelle príncipes individuais arcaicos, viva a república de todos os cidadãos, com os seus príncipes coletivos modernos!

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